segunda-feira, maio 15, 2006

Folha em branco

O rapaz sentara-se à secretária e começara agora a escrever. O texto saía-lhe fluentemente, como se toda a vida se tivesse dedicado a essa profissão. No entanto, esta era a primeira vez que o tentava fazer. Pelo menos, um pouco mais seriamente. É verdade que inúmeras já tinham sido as folhas rasgadas, as frustrações de se ter algo para dizer, e não o conseguir exprimir. Faltava vocabulário, eram escassas as ideias, e sobretudo, bem… sobretudo era a folha em branco. Aquela intimidadora, aterrorizadora, absorvedora de tudo o que é pensamento, folha em branco. E no entanto, era ela que puxava mais além. Que permitia a imaginação rolar, a barreira que todos os contadores de histórias tinham vencido para grande deleite das crianças que ouviam o seu conto antes de ir para a cama. Sem a folha em branco, nada disto seria possível, aranhas grandes como arranha-céus, homens vestidos com fatos de aranha ou do tamanho de aracnídeos. Promessas consoladoras, palavras que dão coragem, o espalhar da fé, tratados de paz ou de guerra. Sem a folha em branco, a maior parte das coisas memoráveis, boas ou más, da história da humanidade não mais estariam aí para serem recordadas. E assim se foi preenchendo, com todos os universos reais ou imaginários, quer seja uma guerra das estrelas, ou uma simples lista de compras – pois o fenómeno também se verifica com coisas bem mecânicas e pouco exigentes intelectualmente como uma lista de compras, o que custa é sempre o primeiro item. O que é que eu preciso mesmo? Sal? Não, sal tenho. E na cabeça do infeliz azarado cuja incumbência é, por razões puramente circunstanciais, realizar a árdua tarefa de elaborar uma intrincada mas bem comum lista de supermercado, o arranjo das prateleiras começa a formar-se na sua mente, cada uma com os produtos imaginários de maior probabilidade marketinguista, procurando talvez quais as cores da embalagem adquirida na última ida à catedral de consumo, ou a melodia do último anúncio que passou na televisão, bem antes do telejornal. E enquanto esse processo “enriquecedor” se efectua na mente do malogrado escritor por necessidade, a folha em branco fita em resposta.
“Manteiga.” – Suponhamos que necessito de manteiga, porque a realidade é que ainda há bastante no frigorífico, mas pode-se acabar. E escrevinhando manteiga na folha em branco, quebra-se o pacto de obscurantismo que a mente tinha realizado em sigilo com a folha agora já não tão em branco. A palavra manteiga gatafunhada na folha, olha de volta para o nosso amigo das compras, e de repente a folha em branco não parece tão ameaçadora assim. O resto é trivial.

Em cada folha em branco encontra-se infinitamente reformulado o paradigma sobre a criação, a existência e Deus.

1 comentário:

Priscila Santos disse...

Tenho notado no meu caso que mesmo com lápis fica sempre a marca depois de apagado...resolvi nao apagar, nem tampouco ter uma borracha.

...que escreveste tu na tua folha?
eu tenho algures um esboço cravado cheio de vigor em cada traço formado, tudo numa onda sem maré.