quarta-feira, maio 24, 2006

Esquife

Se um dia eu escrevesse sem rumo, o que iria escrever?
Se um dia navegasse sem bússola, viajasse sem mapa, mergulhasse sem profundímetro será que iria voltar?
Sei que o mundo é todo igual: não interessa onde se vai, as pessoas que lá vivem desejavam conhecer o lugar donde viemos.
Sei também que não há duas pessoas iguais. Não existem caras metades, nem almas gémeas, nem sequer gostos comuns. Cada um gosta à sua maneira, mesmo que goste de exactamente as mesmíssimas coisas. Porque haveriamos de nos enganar a nós próprios? Esse é o primeiro passo para ludibriar outros, e fazê-los sofrer.
Outras coisas que eu fizesse, tornar-se-iam nas mesmas que já fiz.
Outras pessoas que conhecesse, acabariam por ser como as que já conheci.
Outras coisas que sentisse, magoar-me-iam como as que já senti.

terça-feira, maio 16, 2006

O gigante sem taxi

O rapaz escrevia, a pena fluía. O papel absorvia a tinta como se de uma esponja se tratasse. Agora um jovem aparentando uns vinte anos bem vividos, olheiras marcadas no rosto apesar de ser apenas observado à distância, esbracejava em bicos dos pés quase na ponta do passeio, caindo sua figura alta mas mesmo assim curvada sobre a negra estrada. O seu cabelo quase vermelho ardia ao sol abrasador, mas isso não intimidava o jovem de sardas. Este mantinha-se no seu dever como se de cumprir um voto sacerdotal se tratasse, e nem o suor que lhe escorria pelo rosto e que se agrupou numa gota na ponta do nariz o demoveu de seu esforço valente em chamar um táxi debaixo de tamanho calor e correria.
Era a hora de ponta, as pessoas atarefadas em chegar novamente ao ponto de partida do qual tinham fugido apenas uma horas antes, tinham dificuldades em levantar o nariz do chão, e se um ou outro par de olhos porventura se dignasse em fixar aquela cena, depressa passaria à necessidade mais urgente de colocar um pé à frente do outro na calçada gasta e falsa sem que a mente chegasse a assimilar aquela imagem insólita mas corriqueira de um gigante vermelho, suando e vestindo fato completo azul escuro, tentava a todo o custo chamar um táxi livre enquanto se esquivava de um smart último modelo.
Caricato, só o que se passaria a seguir, pois o rapaz por instantes parara de escrever…

segunda-feira, maio 15, 2006

Folha em branco

O rapaz sentara-se à secretária e começara agora a escrever. O texto saía-lhe fluentemente, como se toda a vida se tivesse dedicado a essa profissão. No entanto, esta era a primeira vez que o tentava fazer. Pelo menos, um pouco mais seriamente. É verdade que inúmeras já tinham sido as folhas rasgadas, as frustrações de se ter algo para dizer, e não o conseguir exprimir. Faltava vocabulário, eram escassas as ideias, e sobretudo, bem… sobretudo era a folha em branco. Aquela intimidadora, aterrorizadora, absorvedora de tudo o que é pensamento, folha em branco. E no entanto, era ela que puxava mais além. Que permitia a imaginação rolar, a barreira que todos os contadores de histórias tinham vencido para grande deleite das crianças que ouviam o seu conto antes de ir para a cama. Sem a folha em branco, nada disto seria possível, aranhas grandes como arranha-céus, homens vestidos com fatos de aranha ou do tamanho de aracnídeos. Promessas consoladoras, palavras que dão coragem, o espalhar da fé, tratados de paz ou de guerra. Sem a folha em branco, a maior parte das coisas memoráveis, boas ou más, da história da humanidade não mais estariam aí para serem recordadas. E assim se foi preenchendo, com todos os universos reais ou imaginários, quer seja uma guerra das estrelas, ou uma simples lista de compras – pois o fenómeno também se verifica com coisas bem mecânicas e pouco exigentes intelectualmente como uma lista de compras, o que custa é sempre o primeiro item. O que é que eu preciso mesmo? Sal? Não, sal tenho. E na cabeça do infeliz azarado cuja incumbência é, por razões puramente circunstanciais, realizar a árdua tarefa de elaborar uma intrincada mas bem comum lista de supermercado, o arranjo das prateleiras começa a formar-se na sua mente, cada uma com os produtos imaginários de maior probabilidade marketinguista, procurando talvez quais as cores da embalagem adquirida na última ida à catedral de consumo, ou a melodia do último anúncio que passou na televisão, bem antes do telejornal. E enquanto esse processo “enriquecedor” se efectua na mente do malogrado escritor por necessidade, a folha em branco fita em resposta.
“Manteiga.” – Suponhamos que necessito de manteiga, porque a realidade é que ainda há bastante no frigorífico, mas pode-se acabar. E escrevinhando manteiga na folha em branco, quebra-se o pacto de obscurantismo que a mente tinha realizado em sigilo com a folha agora já não tão em branco. A palavra manteiga gatafunhada na folha, olha de volta para o nosso amigo das compras, e de repente a folha em branco não parece tão ameaçadora assim. O resto é trivial.

Em cada folha em branco encontra-se infinitamente reformulado o paradigma sobre a criação, a existência e Deus.